Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

O império contra ataca

Quando a democracia se mostra, quando é lembrada pelo voto e recordada pelos campos e pelas insónias da loucura, é que os gigantes acordam e os ratos saltam dos navios. Bastou a democracia dizer presente na pequena Grécia para que os gigantes, assustados com tamanha ingratidão, corressem a fechar os estores à luz da mudança.
     Agora os gregos estão cercados, forçados a caminhar em direcção aos penhascos, empurrados pela força do revisto império persa, mas é estranho ser a velha Europa quem treme de medo. Tal como outro império, o Romano, que por ser tão grande se julgava indestrutível, também a velha Europa, por ser tão velha, finge não sentir os ventos do rejuvenescimento da sociedade nas velas da viagem. É nos mestres do status quo que a mudança é clara, transformistas incontestáveis há muito reclamam a capacidade de mudar de pele.
    É vê-los agora, aos defensores da austeridade, a deambular sobre a necessidade de apostar no crescimento económico, no emprego e em outras tantas coisas ainda ontem fora de moda. Bastou um Hollande para mudar o velho mundo, bastou a Grécia para lembrar que votar ainda tem um significado, um significado simples e claro: o centrão está tão caduco como o partido único.
    A Renânia do Norte-Westfália já mostrou, aos que ainda não tinham percebido, que a Alemanha de Merkel é mais passado do que presente, e não tardará muito para que os senhores da austeridade se confundam no pó da sua queda com os democratas que nunca foram. Não fosse o povo tão crédulo e as mudanças dariam lugar a novos actores e não a reivenção de antigas marionetas. Seja como for, mais valem democratas mentirosos do que ditadores sinceros.

Domingo, 22 de Abril de 2012

O caminho de Hollande


O que me fascina em Hollande é ser – assim como a Holanda – um sítio desconhecido onde se sabe que há tulipas e uma rua com luz vermelha e pouco mais. E no entanto cabe a Hollande a gigantesca missão de mudar a Europa e, mudando a Europa, mudar o mundo, ou não fosse Amesterdão símbolo da liberdade e do direito à diferença.
     A queda de Sarkozy, mais do que a queda de Sarkozy, é o princípio do fim de uma era, de um eixo e de uma ambição alemã, ou melhor, de uma ambição oligárquica transcontinental que, ignorando os países, preconiza o regresso ao sistema de castas e às classes pré-definidas independentemente dos estudos e da dedicação ao trabalho.
     E não deixa de ser curioso que a França, no passado sinónimo de colaboracionismo, mas também de resistência, seja hoje a resistência, enquanto Portugal olha do primeiro balcão, qual Lisboa sem espiões, para uma Europa que ainda não percebeu que o futuro propalado pelos economistas e líderes de opinião foi ontem.
     A Inglaterra – fora dos acordos unitários essenciais – faz o seu papel de Churchill sobre o mapa do levantamento silencioso dos povos e, assim, toda a velha Europa toma o lugar em volta da mesa da nova Europa enquanto os bons alunos percebem que não é a copiar memorandos que os países são países.    
     Com a vitória de Hollande e a queda de Sarkozy não faltará muito para que Seguro dê lugar a uma liderança mais à esquerda, a uma oposição aparentemente mais opositora e a uma realidade onde Teixeiras, Sócrates, Passos perdidos e Gaspares sonambólicos pareçam nunca ter existido. O que me fascina em Hollande é ser – assim como a Holanda – um sítio pequeno e desconhecido, um lugar simultaneamente comum e secreto, cheio das surpresas e dos mistérios que mudam o mundo.

Quinta-feira, 12 de Abril de 2012

Crónicas de tribunal no jornal 'A Capital', em 2000


A ideia do espaço "Aos Costumes Disse Nada" era simples. Assistia a uma sessão ao acaso de um julgamento no tribunal de primeira instância e escrevia um texto mais ou menos no espaço de uma hora. Espero que gostem. Comentem e partilhem.


(Clicar nos links para ler)




O livro da selva

Duas cervejas

Segunda-feira, 9 de Abril de 2012

Um poema publicado em 2002 na revista literária 'apeadeiro'

Há uma década andava eu pelos caminhos da poesia. Aqui deixo um texto dessa altura e um convite à leitura. Em breve haverá novidades… 



são poucas as coisas que são-tudo. uma cadeira em equilíbrio é-definitivamente-tudo. a rua onde mora. o lembrar. as-telhas de ver porque apenas reflexo. e o silêncio da cor, que é não-mais do que uma ausência muito constante de livros-à conversa com os pássaros. quando a conversa dos pássaros é tudo é-mais do que tudo. e o mar é-sempre
     porque saber mentir é semelhante a escrever nas costas-dos postais. é semelhante a demorar muito nos sítios-de passagem. é semelhante a acreditar nas árvores. no tempo de que são feitas as árvores. é quase igual a acreditar. e depois. e depois, são poucas as coisas que são-tudo. como: uma cadeira em equilíbrio é-definitivamente-tudo. e se alguma semelhança existe entre a gaveta e as coisas que guarda. a semelhança é possivelmente mais. e o mar é-sempre